| Vila de Paranapiacaba ... |
O acampamento que se tornou vila histórica !!
Construída para abrigar os funcionários da São Paulo Railway, Paranapiacaba transformou-se em patrimônio histórico nacional
A Vila de Paranapiacaba, em Santo André, guarda importante acervo que permite conhecer um pouco da trajetória do transporte ferroviário no Brasil ou particularidades da exuberante natureza local. Houve um tempo, porém, em que a residência do engenheiro-chefe da ferrovia e o Clube União Lyra-Serrano tinham funções cotidianas, como acontecia com qualquer outra edificação local. De sua casa, o engenheiro fiscalizava o trabalho dos operários, que, nas folgas, desfrutavam de momentos de lazer na sede do clube.
Estes são apenas detalhes de uma história que se iniciou em 1856, quando o governo brasileiro concedeu autorização para que Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá, buscasse no exterior uma companhia disposta a construir uma estrada de ferro que ligasse a cidade de Jundiaí, importante ponto de comunicação com o interior do Estado, ao porto de Santos. Tempos depois, surgia a São Paulo Railway Company (SPR), financiada com capital nacional e inglês, com direito a explorar o trecho por 90 anos.
Com o início das obras, por volta de 1860, as dificuldades para a subida da serra levaram à organização de acampamentos para os operários. Tratava-se de casas de pau-a-pique e sapê levantadas em dois pontos, um deles no Alto da Serra. Surgia então o embrião da futura Vila de Paranapiacaba. Sem planejamento, o acampamento tinha traçado irregular e ficou conhecido como Vila Velha ou Varanda Velha, onde se aboletavam, além dos trabalhadores, prestadores de serviços atraídos pela presença da nova atividade econômica.
A Estrada de Ferro Santos-Jundiaí iniciou as operações em 1867, mas, com o gradual crescimento do fluxo de passageiros a partir de 1874, o governo imperial passou a pressionar a empresa para que melhorasse as condições da linha. Entre outras medidas, no mesmo ano, o antigo pátio de manobras próximo ao acampamento do Alto da Serra deu lugar a uma estação.
Em 1895, a São Paulo Railway iniciou a duplicação da estrada, o que possibilitou o aumento do número de viagens. A nova fase levou à empresa a uma decisão: construiria no Alto da Serra uma vila planejada para abrigar os trabalhadores da companhia. Em 1897, foi inaugurada a Vila Nova ou Martin Smith, assim chamada em homenagem a um dos primeiros diretores da companhia.
De acordo com o arquiteto Wilson Stanziani, gerente do Museu de Santo André, a nova vila foi dividida em quadras, com vias principais, secundárias e vielas sanitárias, pequenas ruas atrás das casas por meio das quais se recolhia o lixo, se faziam mudanças.
Com o único objetivo de servir de moradia para os empregados da São Paulo Railway, as construções da nova Vila obedeciam a uma hierarquia. Acima de todas, a residência do engenheiro-chefe, o Castelinho. Abaixo, estavam as casas ocupadas pelos engenheiros, seguidas das construções geminadas de duas moradias, destinadas aos chefes da estação, e as geminadas de quatro residências, ocupadas pelos ferroviários que tinham famílias. Finalmente, os alojamentos para solteiros, que tinham de dez e 20 quartos.
Em janeiro de 1900, na esteira da duplicação da linha, era entregue à população uma nova estação local, "um vasto edifício luxuoso, de requintado gosto artístico", segundo matéria publicada na edição de 30 de março do mesmo ano no Jornal do Comércio. De acordo com Wilson Stanziani, aos poucos, a vila tornou-se um pólo sociocultural importante da região do ABC. "No início do século 19, a vila tinha o maior colégio eleitoral da região", garante.
Os trabalhadores, em sua maioria imigrantes portugueses, espanhóis e alguns italianos, tinham jornada de trabalho alternada, com regime de plantão aos fins-de-semana. A primeira turma iniciava às 5h30 e prosseguia até às 11h; retornava às 15h e encerrava o expediente às 18h. A segunda equipe pegava no batente às 11h e parava às 15h para o almoço, com retorno por volta das 18h para encerrar o turno aproximadamente às 22h.
Em 5 de novembro de 1907, o antigo acampamento para operários e a Vila Martin Smith foram batizadas de Distrito de Paz de Paranapiacaba, palavra tupi-guarani que significa "de onde se vê o mar".
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